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Por André Eduardo Ruschel em dezembro de 2018

O ano era 1994. a guerra de consoles envolvendo a SEGA e a Nintendo mostrou para outras empresas que havia espaço no crescente mercado para outros videogames. A quinta geração dos consoles já havia começado e o Sega Saturn e o PlayStation estavam no “forno”. Em junho daquele ano, em Chicago, ocorreu a Summer CES, feira de exposição de eletrônicos anterior à E3, e todos esperavam por mais informações referentes ao 3DO, Jaguar e outros hardwares modernos. Diversos títulos chamaram a atenção da mídia para estes novos consoles, como os belos Road Rash e Gex para 3DO. Porém, aquilo que ninguém esperava é que o jogo mais bonito e aclamado da feira seria do já antigo Super Nintendo: tratava-se de Donkey Kong Country.

Donkey Kong Country foi lançado originalmente para o Super Nintendo em novembro de 1994, desenvolvido pela Rare e publicado pela Nintendo, sendo posteriormente lançado em versões consideradas inferiores para Game Boy Color no ano 2000 e Game Boy Advance em 2003. Por fim, ele recebeu relançamento de sua versão original para o Virtual Console em 2006 e 2014, para Wii e Wii U, respectivamente.

Os mapas simples e funcionais seguiam o estilo clássico de Super Mario Bros. 3.

Curiosidade 1: Aqueles que tiveram a sorte de viverem os anos 90 possuíram o privilégio de assistir propagandas de videogames na TV. Abaixo, veremos duas delas: uma destinada diretamente para a venda do Donkey Kong Country e outra dos macacos Gonçalves e Dolores, fazendo clara relação aos jogos dos símios. Velhos tempos da Playtronic representando a Nintendo em nossas terras.

Abaixo, o comercial de Gonçalves e Dolores.

Plataforma e a “guerra de consoles”

Donkey Kong Country já ganhava o jogador em sua apresentação. A materialização do logo da Rare já mostravam os tais gráficos avantajados do primeiro cartucho de 32 megabits do Super Nintendo, ainda que não utilizasse qualquer tipo de chip extra para modelar os detalhados personagens. Cranky toca uma vitrola com a música do clássico Donkey Kong de arcade, quando de repente o novo macaco engravatado cai e derruba o velho símio que representa o passado da franquia. Caso o jogador tivesse paciência para assistir mais uma vez a animação, veria um rolo compressor passar. Tudo isto não era por nada. A Rare sabia que tinha uma obra de arte nas mãos e mostrou que a queda de Cranky simbolizava a nova era da franquia, assim como o compressor estaria deixando o Mega Drive finalmente com o segundo lugar na geração. Simplesmente genial.

A música e o cenário do clássico DK sendo trocados pelo moderno e descolado.

Durante a guerra de consoles da quarta geração, víamos o gênero plataforma como aquele de maior destaque entre os jogadores, com Mario e Sonic exercendo um domínio sobre qualquer outro mascote que tentava buscar um lugar neste pódio. Em meio a tentativas de diversas empresas em começar logo a quinta geração, a Rare conseguiu mostrar que o Super Nintendo ainda possuía um potencial ainda desconhecido e que o 32X da SEGA e os supostos 64 bits do Jaguar não passavam de extravagâncias dos concorrentes.

Curiosidade 2: As vendas de Donkey Kong Country foram incríveis para a época de seu lançamento, atingindo a marca de 9,3 milhões de unidades vendidas apenas em sua versão original para Super Nintendo. Esta marca faz deste jogo o mais vendido de sua franquia e o segundo do seu console, ficando atrás apenas de Super Mario World com seus incríveis 20,6 milhões.

Análise técnica

O enredo de Donkey Kong Country está mais para um simples contexto. Certo dia, o macaco que dá nome ao título do jogo descobre que seu estoque que bananas foi roubado de sua casa, em Kongo Jungle, pelo líder dos répteis Kremlings, King K. Rool. A aventura consiste no busca de Donkey e seu sobrinho Diddy pelo tesouro roubado.

Imagens de Kremlings da trilogia Donkey Kong Country do Super Nintendo.

Durante a campanha, atravessamos 40 fases distribuídas em 6 mundos com temáticas diferenciadas. Teremos momentos embaixo d’água, na neve, fases de cipós, com foco no lançamento dos personagens pelos barris e os conhecidos carrinhos de minas, símbolos do jogo. A jogabilidade, além de ter uma ótima qualidade, também acaba sendo bastante diferenciada, não somente pelas habilidades diversas de Donkey e Diddy, como também pelas montarias que encontrávamos em determinadas fases. Caso venhamos a perder um dos personagens, o outro segue do exato ponto até encontrar um barril DK, recuperando assim o amigo.

O design das fases com cenários pré-renderizados produzidos à mão por Tim Stamper são realmente lindos, combinando muito com a jogabilidade fluída que o game possui.

Você era daqueles que gostavam ou tinham medo das minas de Donkey Kong Country?

As diferenças entre Donkey e Diddy estão no fato do primeiro ser mais forte e lento, enquanto o segundo é mais rápido e fraco, dependendo do jogador descobrir qual o melhor momento para se jogar com cada personagem. A experiência de jogo pode ser aproveitada em single ou multiplayer. No caso da segunda opção, os jogadores poderão alternar ou jogar simultaneamente.

A tela de mapa para seleção de fases é herdada de Super Mario Bros. 3 e exerce muito bem a função. Ao final de cada mundo, temos um chefe que guarda uma boa parte do “tesouro” da família Kong. Vale lembrar aqui que podemos conseguir uma “carona” com Funky, caso desejemos viajar por entre os mundos.

Os chefes, apesar de lindos, são reproduções maiores de inimigos já presentes na campanha.

A dificuldade do jogo é razoável, sendo frustrante apenas para os iniciantes na franquia. Os chefes, apesar de serem divertidos de enfrentar, não foram muito criativos, tratando-se de versões gigantes de inimigos encontrados nas fases. O fator replay é grande, uma vez que além do jogo ser ótimo e nos dar vontade de jogá-lo novamente, a busca pelos famosos 101% é bastante árdua. Na primeira vez que é terminado, o jogador levará umas 10 horas em média (tempo bem maior que a maioria dos jogos deste gênero, em seu tempo), estendendo muito esta marca caso queira encontrar cada uma das várias passagens secretas existentes no game.

A trilha sonora de Donkey Kong Country é incrível. Os compositores Robin Beanland, Eveline Fischer e David Wise usaram o máximo que os canais de áudio do Super Nintendo poderiam proporcionar. Já em seu tempo, orquestras começaram a executar suas músicas ao redor do mundo e CDs com a trilha foram comercializados. O número de faixas é grande e todas de grande inspiração. É realmente difícil escolher qual a melhor música deste incrível jogo.

Abaixo, vemos a trilha sonora completa e original de Donkey Kong Country.

Abaixo, vemos a execução da trilha de Donkey Kong Country, com a participação de David Wise e Robin Beanland, durante a Video Games Live.

Curiosidade 3: O sucesso de Donkey Kong foi tão relevante que o jogo acabou recebendo uma série de TV nos anos 90. A animação teve 40 episódios e abusava dos efeitos de computação gráfica. Os estúdios responsáveis pela série de nome ‘La Planète Donkey Kong’ são France 2 e Nelvada, localizados na França e Canadá respectivamente. No Brasil, ele chegou a passar na TV Record e na Fox Kids. Para muitos, este não foi o melhor momento dos membros da família Kong.

Os bastidores de Donkey Kong Country e seus incríveis gráficos

Tim e Chris Stamper.

Os irmãos Tim e Chris Stamper (artista e programador, respectivamente) começaram sua trajetória no mundo dos games no início da década de 80 fazendo jogos para os computadores domésticos da época, como o ZX Spectrum, sendo que aqui já tiveram um relativo sucesso, com títulos como Sabrewulf e Knight Lore. Ainda nesta época, viram no NES uma boa possibilidade de sucesso e, após fazerem a engenharia reversa no console, começaram a desenvolver jogos de grande qualidade para a plataforma, como o belo Battletoads, que estava entre os mais de 60 títulos lançados para o sistema. Neste período, a Rare estava fazendo grande sucesso graças também a seus games lançados para outras plataformas, como Game Boy, Game Gear, Master System, Mega Drive e Super Nintendo.

Os desejos de Chris Stamper de desenvolver algo revolucionário era muito grande. Pensando nisso, ele fez a compra das caríssimas estações gráficas da Silicon Graphics, que haviam sido responsáveis pelos efeitos especiais dos filmes O Exterminador do Futuro 2 e Jurassic Park, ambas obras que receberam o óscar de melhores efeitos especiais nos anos 1992 e 1994, respectivamente.

As diversas animações mostravam o capricho dedicado à criação dos personagens principais.

Após os primeiros testes realizados com as estações gráficas, os irmãos chamaram o representante da Nintendo, Genyo Takeda, para que este conferisse aquilo que a Rare era capaz de fazer. Takeda simplesmente não conseguia acreditar no que estava presenciando e, segundo consta, chegou a conferir se abaixo da mesa em que estava o Super Nintendo haviam outros cabos ligados a algum computador. Chris explicou que o que haviam feito era uma conversão de modelos 3D que possuíam uma alta quantidade de polígonos para Sprites, através da técnica conhecida como ACM.

Ao voltar para o Japão, Takeda transmitiu as novidades para o presidente da Nintendo na época, Hiroshi Yamauchi, que comprou 25% das ações da Rare, adquirindo assim, a exclusividade dos jogos produzidos pelo estúdio a partir de então. O próprio presidente acabou cedendo os direitos de uma de suas principais franquias para o estúdio fazer um jogo utilizando esta nova tecnologia, e assim nasceu Donkey Kong Country.

As mudanças bruscas de clima durante a partida eram simplesmente incríveis.

Shigeru Miyamoto, criador do Donkey Kong original, enviou sugestões para a Rare para o novo game, incluindo o design do macaco utilizando a gravata vermelha, mas acabou não se envolvendo profundamente no projeto, uma vez que estava produzindo outros jogos em sua terra, como Yoshi’s Island.

Conforme dito no livro “The Ultimate History of the Video Games”, de Steven L. Kent, após a Nintendo ter acesso aos primeiros resultados de Donkey Kong Country, começaram a pressionar Shigeru Miyamoto, exigindo que o designer utilizasse em Yoshi’s Island a mesma técnica de modelagem desenvolvida pela Rare. Segundo consta, em um acesso de fúria, Miyamoto disse: “Donkey Kong Country prova que os jogadores aceitam uma jogabilidade fraca se o jogo possuir bons gráficos”. Tempos depois, o designer original de Donkey Kong pediu desculpas pelas palavras e confessa ter dito aquilo por estar pressionado, sendo que concorda que Country é um título que merece os créditos que possui.

O famoso momento correto de apertar um botão. Esta precisão era frustrante muitas vezes.

Apesar de todas as qualidades de Donkey Kong Country, a principal razão de ser lembrado hoje são seus gráficos considerados revolucionários em seu tempo, uma vez que a Rare arriscou ao utilizar sprites pré-modelados em 3D. Esta nova técnica de compressão permitiu aos desenvolvedores acrescentarem muito mais detalhes em cada sprite quando comparados aos demais jogos que haviam no mercado naquele momento. Esta rebuscada técnica de animação é conhecida como ACM (Advanced Computer Modeling, ou Modelagem Avançada por Computador, em português).

Os cenários eram lindos. Hhaviam trocas de climas de forma brusca sem qualquer lentidão, águas fantásticas, cavernas de gelo e texturas que faziam tudo parecer de um console futurista. Já na primeira fase, vemos que começa durante o dia e termina ao entardecer, enquanto outros níveis possuíam relâmpagos ou nevascas súbitas. A quantidade de animações dos protagonistas também era impressionante.

Curiosidade 4: O tema da música Aquatic Ambience aparentemente foi uma tremenda dor de cabeça para os programadores de Donkey Kong Country, uma vez que exigia mais do que o Super Nintendo poderia oferecer. Pelo menos, sabemos que o esforço valeu a pena, já que a trilha é linda.

Os amigos da floresta

Eu possuo o costume de valorizar os inimigos dos games em minhas análises, descrevendo-os em um chamado bestiário. Desta vez, pensei em fazer algo diferente: já que os Kongs possuem um grande número de ajudantes em seus jogos, resolvi inverter a ideia e apresentar os amigos da macacada.

Primeiramente, os amigos macacos:

  • Cranky Kong: Existe a polêmica sobre o fato de Cranky ter sido o mesmo gorila que infernizava Mario nos tempos do clássico Donkey Kong de arcade. Atualmente, esta discussão está praticamente encerrada e a Nintendo aceita se tratarem do mesmo macaco. Sua função no jogo é resmungar, dar conselhos e fazer algumas piadas;

Aquele alívio do save.

  • Funky Kong: Ele é irmão de Donkey e dono da Funky’s Flights. Com sua ajuda, conseguimos ter acesso aos mundos já visitados para pegar itens especiais que ficaram para trás;
  • Candy Kong: Ela é a namorada de Donkey e ajuda muito no decorrer da campanha, uma vez que ela salva nosso progresso. Nas continuações dos jogos de Super Nintendo, Candy foi bastante ignorada.

Agora, os ajudantes de outras espécies:

  • Rambi (o rinoceronte): o preferido da maioria dos jogadores já aparece na primeira fase do jogo. É bastante útil, uma vez que seu chifre, além de ir “limpando” o caminho, matando os inimigos, também ajuda a descobrir passagens secretas. Inimigos, como as vespas amarelas e os porcos-espinhos, podem ser derrotados quando estamos com Rambi;
  • Winky (o sapo): Controlado em apenas quatro fases do jogo, ajuda principalmente a alcançarmos lugares altos do cenário. Infelizmente, foi colocado na reserva pelos programadores e não apareceu em Donkey Kong Country 2 e 3;

    Logo de cara, já temos a bela experiência da montaria em Donkey Kong Country.

  • Enguarde (o peixe-espada): Aliado de grande ajuda nas fases aquáticas, Enguarde pode vencer tubarões e outros inimigos, além de facilitar o controle dos personagens embaixo d’água;
  • Squawks (o papagaio): Neste primeiro jogo da trilogia do Snes, o papagaio teve pouca participação, servindo apenas para segurar uma lanterna durante uma fase escura. Squawks retornou nos jogos seguintes com papéis bem mais relevantes;
  • Expresso (o avestruz): Outro amigo carismático que apareceu apenas no primeiro Donkey Kong Country. Suas funções estão em ajudar na velocidade e na possibilidade de poder planar pelo cenário. Provavelmente foi removido das sequências porque a personagem Dixie exercia sua segunda função com muito mais precisão.

O peixe ajudava muito, não somente pela agilidade na água, mas porque sem ele os protagonistas não possuem qualquer forma de defesa nestas fases.

Curiosidade 4: A Rare chegou a elaborar uma girafa para estar entre os amigos companheiros de jornada, mas acabou desistindo da ideia.

Nossa conclusão

Donkey Kong Country possui presença confirmada em listas de melhores jogos de todos os tempos, independentemente do local em que são feitas, o que demonstra o sucesso universal que o jogo possui. Sua diversão ocorre do início ao fim, com sua apresentação cômica, trilhas fabulosas e dificuldade balanceada. Certamente, trata-se de um daqueles jogos que envelheceram bem e que vale a pena ser jogado hoje da mesma forma que valia no ano de seu lançamento. Ficamos felizes e agradecidos que a franquia continua viva nos consoles da Nintendo e ainda recebendo títulos de alta qualidade atualmente. Recomendamos que Donkey Kong Country seja jogado o quanto antes, sem moderação.

Momento de scrolling automático que exigia habilidade e conhecimento da etapa.

Avaliação: 9.5

Jogado no Super Nintendo.

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