Por João Paulo Neto em agosto de 2016

“O verso desta carta simula um portal para o inferno” – ou algo próximo disso – foi o que Gilberto Barros, um antigo apresentador de programas de auditório, falou sobre a febre Yu-Gi-Oh!. Isso foi em 2003. Com 13 anos na época, achei aquilo um absurdo. Era um jogo de cartas, similar ao já antigo e famoso Magic: The Gathering, além de ter seu próprio desenho que estava fazendo bastante sucesso.

Olha só, o “portal do inferno”…

Várias pessoas mais velhas do que a molecada inserida na era de Yu-Gi-Oh! estavam com medo dessas cartas, pensando que isso poderia levar o filho para o inferno, pois seria um “verdadeiro sinal do demônio” na terra. Nem é preciso dizer o quanto isso é uma bobagem, certo? Mas, muitas crianças foram proibidas de jogar com seus amigos, cartas foram queimadas, rasgadas, trituradas, escondidas… E a onda Yu-Gi-Oh! foi sumindo com o tempo. Não exclusivamente pelo ódio ao jogo, mas sim por estarem surgindo outras novidades para entretenimento no mercado.

Não é como estarmos apontando para religiosos, mas sim APENAS para pessoas de mente fechada, nesse caso em específico.

Dez anos depois, o jogo Assassin’s Creed foi também alvo de crítica da imprensa brasileira. Um menino de 13 anos supostamente matou a tiros toda sua família em casa, e também – supostamente – cometeu suicídio logo após o ocorrido. Pois bem, no meio de toda e nada profissional investigação de minuto feita pela imprensa, descobriu-se que o garoto era fã de Assassin’s Creed… E é isso, começaram a malhação em cima do mesmo. Afinal, algo tinha que gerar polêmica para a mídia, e o fato de termos “Assassin” no nome, já era motivo de culpa para o garoto matar.

E isso é só para citar alguns casos na televisão brasileira e de pessoas lutando contra o que não lhes convinha, trazendo-lhes atenção à custas de uma “febre” que não queriam ter.

Com a chegada no Brasil de Pokémon GO, não foi diferente. Bastou sair para download nos dispositivos Android e iOS e o pessoal já começou suas críticas descabidas e, isso veio inclusive de fãs de longa data, então, vamos cobrir o acontecido por partes:

As primeiras intrigas começam com os jogadores de longa data da franquia – são aqueles que exigem o RG Pokémon da pessoa, falando coisas como “Não sabe nem o nome de 5 Pokémon, mas estão baixando e jogando” ou “Jogo Pokémon desde o século XIV, e agora tá cheio de posers”, enfim, essas bobagens sem tamanho. Não tendo outra palavra para descrever, só consigo dizer que tudo é muito sem propósito: a pessoa não quer jogar só porque é “da moda”, ou se incomoda pela razão de não estar mais em seu tempo de jogar, ou simplesmente NÃO PODE jogar. Aí começa o “recalque”, não é mesmo?

Pokémon de monte para se capturar!

Do nível baixo, começamos a piorar: Aqui surgem também os adultões da internet, que ficam dizendo que não vão jogar Pokémon GO por ser coisa de débil, crianças, inútil, e que não traz algo de produtivo às pessoas. Seria outra grande bobagem? Pensem bem, desde quando o entretenimento tem que levar alguém a algum lugar? Qual a diferença entre jogar algo, assistir a um filme ou ir à uma balada sertaneja, nesse ponto? O entretenimento NÃO TEM que suprir algo em prol de quem o consome… Seu principal propósito é e sempre será divertir.

Aí chegamos mais fundo, onde dizem que as pessoas deveriam ir trabalhar, empreender, ao invés de jogar. Afinal, será que essas pessoas não fazem nada além de trabalhar e dormir? Ficam dezesseis horas diárias trabalhando e as outras oito dormindo. E lá vem a pergunta: Isso é viver ou ser um zumbi? Não estamos falando de não ter responsabilidades, mas sim da trágica vida de uma pessoa, onde só devemos sentir pena por seus “pequenos pensamentos”.

Acima, apesar de tudo, são arjumentos argumentos bobos, irrelevantes e ultrapassados, vindos de pessoas “desatualizadas” sobre o entretenimento no século XXI. Não são eles que vão tirar o smartphone das mãos de quem quer jogar, apesar de quererem. E é isso que devemos entender, que isso é algo intrínseco… Onde as pessoas, que não o entendem, não querem se juntar ao que na realidade é saudável e motivador: para se destacarem no meio da enxurrada de notícias e compartilhamentos sobre isso, falam mal até de coisas que nunca foram realidade, tornando Pokémon GO algo extremamente crítico sem nem saberem do que estão falando.

Sente só esse chute na cara da hipocrisia.

Continuando com Pokémon GO, alguns gigantes da mídia também não querem que você jogue… Eles se encaixariam em algumas das pessoas ilusórias citadas acima? Coincidentemente, boa parte são as mesmas que não querem que você jogue videogames em geral ou use demasiadamente produtos de terceiros não-parceiros. Como dito antes, tornam isso polêmica em prol deles mesmos… essa é a imprensa das grandes corporações.

Reparou como surgem notícias de que alguém foi assaltado enquanto jogava Pokémon GO? Toda hora é notícia em cima de notícia sobre isso. Ouvi conhecidos falando comigo sobre isso, e eu já até desisti de explicar que isso é uma minoria, que não adianta culpar o jogo, pois milhares estão jogando… E quando acontece algo de errado com UM, aí se torna uma presa da grande imprensa… Não adianta tentar mostrar os benefícios do jogo… A imprensa quis impressionar com “tragédias” na televisão e conseguiu sua parte, já.

Foto de Business Insider

E a coisa vai piorando. Foi compartilhada em massa uma notícia sobre um garoto que morreu afogado porque estava jogando Pokémon GO. Notícia falsa, pois o garoto tinha Pokémon GO instalado no smartphone, mas não necessariamente estava o jogando. Além do mais, uma criança não deve ficar sem SUPERVISÃO DE MAIORES, ainda mais próxima a um lugar onde ela pode se machucar.

Mas, não, o culpado é Pokémon GO… Assim como Ezio Auditore da Firenze influenciou o menino a matar os pais (mesmo indo contra sua índole), assim como as cartinhas de Yu-Gi-Oh! iam te levar para o inferno (se aquelas cartas te afastou de Deus, nem quero saber o que outra coisa faria).

Perceba que os sites que noticiam isso dessa forma são majoritariamente ligados a emissoras de TV, que normalmente são donas deles e obtém o mesmo perfil, podendo envolver um motivo muito óbvio: os videogames tiram as crianças da frente da televisão e do conteúdo de extrema má qualidade que estas emissoras apresentam. Que bom seria se as emissoras brasileiras não fossem tão ultrapassadas e entendessem o jovem de hoje, invés de tentar massacrar seus gostos e passatempos.

Veja a matéria completa em https://blogdoiphone.com/2016/08/pokemon-go-e-usado-em-hospitais-para-incentivar-criancas-a-sairem-da-cama/

Pokémon GO vai mais além de tirar as pessoas da frente de um conteúdo banal e sem qualidade educativa: faz as crianças do nosso tempo se levantarem e irem dar uma volta. Um amigo meu foi caçar pokémon aqui na cidade em uma praça no centro, onde geralmente só se viam possíveis ladrões e até mesmo traficantes, onde havia muito perigo para cidadãos. No dia? Lotada de famílias brincando e interagindo entre si. Ou seja, o que esse jogo fez e ainda faz é louvável. Isso sem contar os relatos de crianças em hospitais se levantando de seus leitos, motivadas, alegres, tendo auxilio no moral e na melhor recuperação delas. E o que falar de autistas que estão superando sua condição para SIMPLESMENTE brincar no jogo? Sem palavras para a Niantic!

Mas, claro, pra esses “gigantões” isso é uma ameaça. É do demônio. Ela faz os mais velhos, majoritariamente alheios à tecnologia, enxergarem as novidades como terríveis causadoras de males à sociedade. Como é possível que um jogo que faz pessoas caminharem até mais que 10km por dia, se divertirem e conhecerem novas pessoas todos os dias, em plena era digital, onde o normal é ignorarmos as pessoas à nossa volta (até o pau de selfie acabou com a interação de pedir para um estranho tirar uma foto sua), ser tão nocivo assim? Poxa, o jogo tem até ajudado pessoas em depressão.

Que vão haver assaltos e roubos? É óbvio que vão, mas isso acontece todos os dias, por qualquer outro motivo… Só que agora temos um novo culpado. Ah, e claro que também vão ter as matérias elogiosas, porém, as de maior destaque e repercussão serão sempre as que estarão detonando o jogo pelos motivos mais banais e sem propósito possíveis.

Mas, disso não tem saída. As velhas mídias, em especial a televisão, estão com seus dias contados. Cada vez menos atrativa, ela continua sua cruzada contra os videogames, a internet e as redes sociais. Pode reparar em como praticam a desinformação sobre tudo o que os jovens consomem. Tentam, assim, fazer nossos pais e avós verem tudo isso como causador de mal, de desunião, o que pode levar a atitudes de proibição de uso por seus filhos e netos.

A televisão, citando a brasileira, continua como se a internet e os jogos não existissem ou não fossem importantes. Ela diz para você colocar uma hashtag com a programação que está assistindo, porém ela não fala os nomes Facebook ou Twitter. Uma doce ilusão onde infelizmente se atinge ainda milhares de pessoas no mundo todo. Além do mais, seria legal ver religiosos ensinando sobre paz e amor, ao invés de acusar o próximo e ver sempre o seu próprio baú após o arco-íris. Seria legal ver mais pais acompanhando seus filhos de forma saudável, cuidando dos mesmos, enquanto jogam Pokémon GO em parques e praças, conhecendo novos amigos. Seria legal.

Quer saber o que é melhor você fazer? Desligar a tv e ir jogar, passear, conversar com as pessoas, se cuidar e se divertir. Sabe onde você acha tudo isso, por exemplo? Em Pokémon GO.

Revisão e edição geral por: Jean Felipe

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