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Por André Eduardo Ruschel em dezembro de 2018

Top Gear era um clássico das locadoras de videogames e um dos fortes argumentos dos “nintendistas” durante a maior guerra de consoles que já ocorreu. A quarta geração (Snes vs. Mega Drive) foi para muitos a melhor fase que os gamers já tiveram, não apenas pelo grande número de jogos de qualidade, mas pela quantidade de exclusivos que existiam. Caso você escolhesse o console da SEGA ou o da Nintendo, inevitavelmente estaria virando as costas para um enorme número de excelentes jogos de todos os gêneros. Entre os games de corrida, o Mega possuía OutRun e Super Monaco GP, mas o Super Nintendo precisava de mais do que o excelente F-Zero; necessitava de algo mais “real”. Assim, surgiu nas mãos dos brasileiros Top Gear, um grande clássico nas terras tupiniquins que é ignorado e até esquecido fora daqui. Sorte nossa que vivemos no Brasil.

Top Gear (Top Racer no Japão) foi lançado para Super Nintendo em 1992. Desenvolvido pelo estúdio inglês Gremlin Graphics e publicado pela empresa japonesa Kemco. Apesar de ser reconhecido pelos primeiros jogos, a franquia teve mais de dez lançados, sendo o último Top Gear RPM Tuning, em 2004, para PC, PlayStation 2 e Xbox.

Aquela vontade enorme de olhar para a tela do amigo, “fechá-lo” e ainda receber um impulso

Curiosidade 1: Durante muito tempo acreditou-se que Top Gear seria a sequência de um jogo de NES, feito pela Squaresoft, chamado Rad Racer (1987). A razão deste boato mentiroso veio de uma página com a informação errada do Wikipédia, que infelizmente acabou sendo disseminada em sites e fóruns brasileiros. A verdadeira fonte de inspiração da franquia está na série Lotus, clássico dos computadores Amiga. Quando perguntaram em uma entrevista ao programador dos três primeiros Top Gear, Ritchie Brannan, sobre este assunto, ele respondeu: “Eu sequer sabia da existência de Rad Racer até hoje” .

Um Clássico Brasileiro

Não há como saber ao certo o motivo para Top Gear ser tão bem reconhecido e admirado no Brasil e tão pouco fora daqui. Sem dúvidas, a paixão que o povo brasileiro possui pelo automobilismo ajuda, principalmente no início dos anos 90 com nosso herói Ayrton Senna, mas muitos colocam como um dos principais motivos a presença de jogos piratas que traziam vários títulos de diversas empresas e gêneros em um único cartucho, sendo Top Gear um deles. Desde a primeira vez que a Videogames Live veio ao Brasil, seu organizador, Tommy Tallarico achava curioso apenas aqui pedirem incansavelmente pela trilha do jogo feita por Barry Leitch. Atendendo a nossos incontáveis pedidos, um medley das músicas do jogo é tocado quando a incrível orquestra vem à nossa terra.

É comum encontrar livros, revistas e sites de outros países que fazem listas com os melhores jogos de todos os tempos e Top Gear nunca estar presente. Aqui destaco o recente livro, também laçado no Brasil, “1001 videogames para jogar antes de morrer”, de Tony Mott, e sequer aqui vemos citações a qualquer game da franquia.

Até hoje não sei se o formato da pista do Peru foi uma piada de muito mal gosto ou não

Curiosidade 2: A foto utilizada na tela de menu de Top Gear foi um mistério por muitos anos. Apenas recentemente foi descoberta a origem da imagem e trata-se do autódromo de Detroit, nos EUA. Neste local, houveram provas de Fórmula 1 entre os anos de 1982 e 1988. Segundo os produtores do jogo, não há nenhuma razão para esta foto ter sido utilizada, sendo apenas uma coincidência. Vale ressaltar que, assim como o percurso de Mônaco, o de Detroit se passa entre as ruas da cidade, além do fato de Ayrton Senna ter sido o maior campeão da prova, vencendo três vezes.

Os Carros de Top Gear

Poucos jogos de corrida clássicos tiveram carros tão icônicos quanto os de Top Gear. Apesar de apenas nos referirmos a eles pelo nome de suas cores, os mesmos eram bastante diferenciados, tendo, inclusive, nomes próprios e inspirações em modelos reais.

  • Cannibal (carro vermelho): Bastante tentador aos olhos, é o veículo com a maior velocidade máxima. Porém, também é conhecido como “tanque furado”, pois é aquele que mais consome combustível entre os modelos disponíveis. Acaba sendo útil nos primeiros torneios e de difícil administração nos últimos, devido a corridas mais longas e maiores exigências de paradas para colocar gasolina. Recomendado para jogadores mais experientes. Sua inspiração veio da clássica Ferrari 512 TR (Testarossa), mesmo carro do jogo OutRun da SEGA.
  • Razor (carro roxo): Além de possuir uma boa velocidade máxima, tem bons resultados em curvas, possui razoável aceleração e é aconselhável para aqueles que já possuem alguma prática no jogo. Seu modelo foi baseado no Jaguar XJR-15.
  • Weasel (carro azul): Carro bastante equilibrado e sem gasto muito elevado de combustível. Acaba sendo um pouco mais sensível nas curvas. Seu modelo foi baseado no Porsche 959.
  • Sidewinder (carro branco): Talvez o mais popular carro de toda a franquia Top Gear, ele é indicado para os iniciantes por possuir uma ótima dirigibilidade e baixo consumo de combustível. Difícil nas primeiras pistas e ótimo nas últimas, por não necessitar que o jogador vá constantemente colocar gasolina. Seu modelo é baseado na Ferrari 288 GTO.

Curiosidade 3: Poucos sabem, mas existe um programa automobilístico de TV britânico chamado Top Gear desde 1977. Esta relação entre as marcas gerou problemas judiciais quando a Kemco resolveu registrar o jogo. O impasse judicial se deu até 1999 quando a justiça decidiu acabar permitindo o nome da marca nos games. Apesar disto, acredita-se que esta foi uma das razões da franquia acabar durante a sexta geração dos consoles.

Análise Técnica

A jogabilidade de Top Gear é completamente arcade, ignorando qualquer tipo de realismo existente em jogos concorrentes, como Super Monaco GP. Podemos, facilmente, fazer curvas com velocidade superior a 200 Km/h, independentemente do carro escolhido. Os controles respondem muito bem aos movimentos dos jogadores e a presença dos 3 nitros por corrida adiciona um bom fator de estratégia durante os percursos, necessitando que saibamos o momento correto para usá-los.

A alta velocidade dos automóveis é uma marca da franquia, principalmente em seus primeiros jogos. Os próprios produtores disseram ser este o grande foco da jogabilidade e que por esta razão foram adicionados os nitros durante o desenvolvimento do jogo.

Lindas corridas à noite com os faróis meramente decorativos

Outro diferencial em Top Gerar está na presença do medidor de combustível, o que também contribui no quesito estratégia para o jogo. A todo momento durante as partidas ficamos na dúvida se nossa gasolina vai durar até o fim do percurso, se é melhor encher o tanque até o limite ou até a metade para ganhar alguns segundos, torcendo depois para que não acabe. O fato dos carros possuírem um consumo diferente também nos faz pensar qual automóvel seria melhor em qual pista. Esta sacada dos programadores foi realmente genial.

Top Gear foi altamente influenciado pela franquia Lotus, principalmente o primeiro da série chamado Esprit Turbo Challenge, de 1990. Neste jogo, temos a mesma tela dividida, os “pit stops”, colaborando para a estratégia durante a corrida e, principalmente, a trilha sonora, também composta por Barry Leitch. Os desenvolvedores do estúdio criador de Lotus, Magnetic Fields, tiveram reações diversas ao verem tamanhas semelhanças, mas nada poderia ser feito, uma vez que ambas as marcas eram propriedade da Gremlin Graphics.

O pit stop dava vontade de roer as unhas, tamanha a ansiedade

A dificuldade é dividida em “amateur” (easy/fácil), “professional” (normal) e “championship” (hard/difícil). Ao jogarmos no modo normal, ainda não vemos maiores dificuldades de terminar o game, principalmente quando compararmos Top Gear com outros concorrentes de seu tempo. Basta um pouco de treino que não haverá maiores dificuldades para ficar entre os primeiros colocados em cada torneio.

A presença do multiplayer certamente ajudou como destaque para a popularidade do jogo. Dizer isto pode ser besteira nos dias de hoje, mas na época vários dos melhores jogos de corrida não possibilitavam esta função, como OutRun, F-Zero e Super Monaco GP (versão de Mega Drive).

O modo “campanha” para se terminar o jogo consiste em oito torneios com quatro pistas cada, sendo que ao final de cada uma você recebe um password para continuar futuramente do ponto onde parou. Estes campeonatos se passam em diversos pontos turísticos ao redor do mundo, então vale a pena prestar atenção no cenário ao fundo. Dois percursos se passam no Brasil: Rio de Janeiro e Floresta Chuvosa (Amazônia), com clássicas placas do nosso estereótipo, escritos “save the trees” (salvem as árvores) e “fun in Rio” (diversão no Rio).

Aqui vemos a beleza da variação de terreno na mesma pista e a tristeza de acabar a gasolina.

Os gráficos de Top Gear provavelmente são seu maior ponto fraco, não havendo maiores detalhes nos cenários e a obrigatoriedade de ser jogado em tela dividida, mesmo quando jogamos sozinhos. Estes pontos nos fazem perceber suas limitações. Certamente, parte disto se deve ao fato do cartucho de Top Gear possuir apenas 4 megabits de capacidade, a mesma de alguns jogos de Master System e dos primeiros dos consoles da quarta geração. Apesar disto, ainda destaco alguns momentos, como a passagem da noite para o dia (existente em determinados percursos), a presença de túneis e diferentes tipos de solos em uma mesma pista.

Não podemos esquecer dos clássicos “balões” com frases que os pilotos diziam durante as corridas. Algumas destas expressões inclusive foram modificadas quando o jogo foi lançado nos EUA. “What the hell??” (“Mas que inferno”) virou “What the heck”?? (“Mas que droga”); “Yo butt head” (“Seu cara de bunda”) se tornou “Yo bone head” (“Seu cara de osso” – tudo a ver) e outros como “Kiss my ass” (“Beije minha bunda”), foram simplesmente excluídos.

A tela de apresentação de Top Gear usava o recurso do Mode 7, assim como quase todo jogo do início da vida do Snes

A diversão existente no jogo é enorme, sendo até os dias de hoje uma ótima opção para se jogar sozinho ou com um amigo. Tudo flui de forma a não gerar maiores frustrações ao jogador. Top Gear não possui enredo; é o prazer completo de fazer ultrapassagens em alta velocidade e buscar a primeira colocação em uma corrida.

Quanto à trilha sonora… Pois bem, esta merece um subtítulo só para ela.

Curiosidade 4: Há um bug fácil de se fazer que consistia em poder ficar em duas posições na tabela de classificação simultaneamente. Não vou entrar detalhes sobre como fazê-lo, pois esta não é a ideia da análise. Aquele que quiser aprender é fácil encontrar na internet. Isto era o paraíso dos trapaceiros.

A Incrível Trilha Sonora

Provavelmente uma das principais razões de Top Gear ser lembrado nos dias atuais são suas ótimas faixas. O que poucos sabem é que seu compositor, Barry Leitch, a fez em apenas cinco dias, e que a maior parte da trilha são músicas remixadas dos jogos da série Lotus. Isso ocorreu porque Leitch levou dois dias para fazer apenas a faixa da primeira corrida, a única que utiliza os oito canais de áudio disponíveis no Super Nintendo. Ciente de que não seria possível concluir o trabalho, Barry revelou: “Como faltava pouquíssimo tempo, foi decidido que eu estava autorizado a reutilizar algumas faixas da série Lotus que eu havia criado e melhorá-las”.

Abaixo, segue a trilha sonora original de Top Gear.

Entre as várias versões brasileiras que encontramos do clássico tema de Top Gear, abaixo vemos a do nosso Lord Vinheteiro.

Curiosidade 5: Para você que acha que já viu de tudo nesta vida e tem dúvidas da influência que Top Gear exerceu nos brasileiros, abaixo segue um clipe de uma música de uma banda de forró usando como base uma faixa do jogo. Também existe um funk, mas este vou deixar para vocês procurarem no YouTube. Obs: No vídeo, os garotos estão jogando Top Gear no PlayStation 2.

Conhecendo melhor o músico de Top Gear: Barry Leitch

O compositor de Top Gear, Barry Leitch

Barry Leitch nasceu em 27 de abril de 1970, em Strathaven, na Escócia. É músico, compositor e possui mais de duzentos jogos de videogame em seu currículo. Quanto à série Top Gear, Leitch compôs as música do primeiro game e de Top Gear Rally para Nintendo 64, anos mais tarde.

A respeito da trilha sonora do primeiro Top Gear, ele ressalta que a música de Las Vegas é sua favorita por ser a única a usar os oito canais de áudio do Super Nintendo. As demais usam apenas quatro devido à falta de tempo e por serem conversões de músicas da série Lotus.

Leitch ficou sabendo do carinho que os brasileiros possuem por Top Gear apenas após os anos 2000, quando fãs começaram a mandar e-mails querendo saber sobre ele e enviando versões de suas faixas. Quando diziam que por estas terras o jogo era tão popular como Mario e Sonic, ele não acreditava. A “ficha” caiu definitivamente quando Tommy Tallarico, criador do Videogames Live, o convidou para ajudar nos arranjos das músicas de Top Gear que seriam tocadas no Brasil. Barry veio ao nosso país, pois como ele mesmo disse: “Vou ter que ir ao Brasil ver uma orquestra tocar minha música. Todos os compositores sonham com isso”. Ao chegar aqui, Leitch conversou com pessoas na rua e, segundo ele, todos conheciam Top Gear, inclusive um policial com quem bateu um papo. O dia da apresentação no Rio de Janeiro chegou e, segundo consta, ele estava ao lado do palco escutando os gritos da plateia que pediam Top Gear entre todas músicas que eram executadas. Após sua canção ser tocada, e com os olhos lacrimejando, o compositor agradeceu a nós brasileiros, pois aqui teve a chance de se sentir como Koji Kondo, criador das trilhas de Super Mario e The Legend of Zelda.

Agradecido, Barry Leitch diz que em frente de sua casa em Ohio, ele possui três bandeiras hasteadas, uma dos EUA, uma da Escócia e uma do Brasil.

Quando lhe perguntaram o que ele acha de bandas brasileiras de forró e funk usarem sua música como inspiração, ele é modesto: “Isto é lisonjeador, (…) porém, ainda não entendi por que eles usam esse som horrível como base”.

Abaixo, vemos um vídeo do Videogames Live com Barry Leitch assistindo do palco, enrolado em nossa bandeira brasileira.

Curiosidade 6: Quem é Ritchie? Para você que ficava atento para ver a pontuação no final de cada corrida e torneio, deve ter percebido que sempre havia um corredor, dentre os NPCs que ficava muito bem colocado, de nome Ritchie. Pois bem, Ritchie Brannan foi o programador chefe dos três primeiros Top Gear e colocou seu nome entre os corredores como ‘easter egg’. Vale ressaltar que Brannan continua atuante no mundo dos jogos de corrida, criando os games da franquia Grid.

Nossa Conclusão

Top Gear não trouxe qualquer tipo de revolução ou grandes novidades para o gênero de corrida nos games, mas sua diversão era, e continua sendo, incrivelmente alta. Bastaria você que está lendo esta análise e é adolescente, perguntar para um gamer de mais de 30 anos quais jogos de corrida marcaram a infância e ele provavelmente dirá Top Gear. O grande designer da Nintendo, Shigeru Miyamoto, certa vez disse que a principal função de um jogo é a diversão que ele proporciona e isto Top Gear faz muito bem. Por fim, nas palavras do próprio programador Ritchie Brannan, a fórmula do sucesso de um jogo está “na jogabilidade simples, mas aperfeiçoada e com uma trilha incrível”.

Curiosidade 7: Em 2015, uma desenvolvedora brasileira de Porto Alegre, chamada Aquiris, lançou no mercado o jogo Horizon Chase, sendo este considerado um sucessor espiritual dos primeiros jogos da franquia Top Gear. Tudo no jogo lembra a sua fonte de inspiração, inclusive terem convidado Barry Leitch para compor as músicas. O game é muito bom e caso seja fã da franquia e ainda não tenha tido a chance de jogar Horizon Chase, jogue. Inicialmente, ele estava disponível para sistemas Android e iOS, mas desde este ano 2018 já o encontramos disponível também no PlayStation 4, Xbox One, Switch e PC.

Avaliação: 9

Jogado no Super Nintendo.

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  1. Se um jogo é lembrado após 30 anos, isso demonstra o quão icônico e inesquecível ele se tornou. Top Gear é a marca de uma geração apaixonada por automobilismo. O retrato de quem aguardava ansiosamente as manhãs de domingo e que sempre chamava um amigo pra dividir freadas e curvas. Perfeito em sua simplicidade.

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